sexta-feira

Ahayepera Kekout signica "eu ia embora, mas resolvi ficar" em tupi kamayurá

Minha viagem a África chegou ao fim, mesmo distante demorei para aceitar alguns novos hábitos - escrever foi um deles.  Confio que a vida irá permitir meu retorno a esta terra (em especial Botswana, e quem sabe Uganda?) muitas e muitas vezes. Enquanto isso, de volta ao Brasil estamos desenvolvendo pesquisas, produções culturais e promovendo projetos socioambientais em benefício das comunidades indígenas, como o resgate das praticas tradicionais. 


Para realizar este desafio criamos o Terra Comum, uma organização sem fins lucrativos que promove ações positivas em benefício das comunidades tradicionais. Na África aprendi que sustentabilidade é um compromisso com as pessoas e comunidades, então ao voltar para o Brasil me senti no dever de aplicar o que aprendi em benefício de outros povos. Conheça aqui nosso projeto e veja como você pode se envolver e também contribuir.


Imagem inline 1

A organização nasceu da paixão por essas áreas de preservação, junto ao respeito pelo conhecimento tradicional dos povos indígenas. Atuamos na região do Alto Xingu no Parque Indígena do Xingu no Mato Grosso.

Nossa missão é garantir um futuro sustentável para os povos indígenas, o reconhecimento do patrimônio cultural e seus esforços para a preservação do meio ambiente. Para atingi-la adotamos o conceito dos 4Cs:

Imagem inline 2
Através do Terra Comum lançamos o Projeto Escola Mavutsinín e acredito que você possa se interessar por essa iniciativa. O financiamento coletivo está hospedado no site Benfeitoria.com/TerraComum e o objetivo é juntar colaboradores em prol da revitalização da Escola Mavutsinín, que fica na aldeia Kamayurá. 

Investindo na Escola estamos afirmando o quanto confiamos no potencial das crianças indígenas e acreditamos que a chave para um futuro mais sustentável e inteligente é possível. 

É isso, espero que gostem do vídeo e participem
Beijos, Duda



Imagem inline 5

Imagem inline 6Imagem inline 7Imagem inline 8

segunda-feira

"Amani" significa paz em swahili

Quando estou em lugares remotos, cercada somente pela natureza e por comunidades de culturas distintas, me sinto diferente. Diferente da Duda que sou no conforto da minha cidade e da minha casa. Seja aqui em Botswana ou no Xingu, sou a Duda que não sente tanto carecimento, não sobra espaço para a falta, é uma imersão em comiserações não corriqueiras.

Aqui as percepções são outras... são puras, luminosas e benevolentes.
Aqui, existe compaixão, generosidade e humildade.

Me reconheço nos olhos de quem não conheço, mas reconheço como igual a mim. Sinto um conforto e carinho diferente de tudo que já vivi quando deixo crianças pentearem e trançarem os meus cabelos. Sinto um enorme calor no coração quando acalmo um bebê que chora. E sorrio sempre, sem esforço.

Aqui não há espaço para a inveja, cobiça, raiva, vaidade ou preguiça. Tudo nos move e nos leva na direção certa. Parece que os estímulos nos levam a ter bons anseios, e essas emoções residem dentro de nós. Ser capaz de vivenciar, de forma tão profunda, sentimentos tão ricos é uma experiência de quietação completa, uma serenidade que extasia e invade o corpo, transbordando a pele e avança sobre o que quer que esteja em volta.

Todos temos a tranquilidade dentro de nós, mas as vezes para encontrar esse silêncio interior, devemos nos afastar das lástimas, da balbúrdia e dos impulsos do cotidiano tradicional. No meu caso, fui para uma aldeia barulhenta, onde o sossego não parece ter chegado...

E aqui, numa terra onde água limpa é coisa rara
Eu encontrei a maior sensação de paz que já provei.

Desejo que 2013 seja assim, repleto de paz interior para você também.


domingo

"Ga ke tlhaloganye" significa não entendo em setswana


Hoje foi um manhã difícil, visitei uma pequena comunidade afastada do camp, aqui em Botswana. Vi o que não estava pronta para ver. Enxerguei a fome e as doenças, uma miséria bem diferente da que conhecemos no Brasil. Uma miséria que realmente envolve a falta e a carência. Um excesso de sujeira, odor, traumas e pânicos. Uma miséria diferente de tudo que eu já havia visto.

Não sei o que senti, não era medo, eu conheço o medo. Também não era pena. Não foi um sentimento nobre, como a compaixão ou a gratidão. Foi uma sensação de vácuo, sei que não existe vácuo na natureza ou no pensamento. Mas foi uma sensação de vazio, de estagnação no vazio. Gostaria de ter auto conhecimento suficiente para compreender, aceitar e agir diante de situações como essa. Descobrir em mim como devo atuar. Mas simplesmente, fiquei lá, assistindo aquela degradação quase como cumplice.

Vi crianças tão fracas que pareciam quebrar a qualquer momento. Dei minha mão a uma menina que teve uma orelha mutilada. Notei garotos comendo insetos que estavam em suas peles machucadas. Observei uma senhora tentar beber água de uma poça e muitas crianças abandonadas. Tenho essas imagens muito claras em minha mente, foram tatuadas em minha memória.

Eu fui bastante covarde e estou muito envergonhada por isso. Paralisei, não sabia o que fazer, nada na vida poderia ter me preparado para este momento. Não distingui minhas emoções e sensações, estava perplexa com a maneira que essa comunidade estava vivendo, ou seria mais apropriado dizer, sobrevivendo.  Depois de alguns minutos ali, minha mente conseguiu se concentrar e eu comecei a me ver. Algo dentro de mim me mandava correr de volta para o carro, em disparada, sem olhar para trás. Mas um outro lado, onde mora um sentido muito mais alto me comandou ir em frente. Lá fui eu, com vergonha de ter desprezado meu almoço, mas com orgulho de encontrar forças para ingressar nessa distante realidade.

O que muito me impressionou foi a quantidade de sorrisos que respondiam ao meu olhar curioso e abismado. Como no meio de tanta insuficiência era possível se encontrar forças para sorrir?

Conheço o poder do sorriso e encontro coragem nele, mas meus sorrisos são respostas a estímulos externos que suscitam uma risonha inspiração. É fácil sorrir quando se tem a vida que tenho. Questiono se saberia rir se não tivesse tanto, e não estou querendo dizer de artifícios materiais, me viro bem sem eles, mas sim família e saúde, será que eu conseguiria sorrir sem eles? As crianças que vi não têm base para um vida saudável. No caminho de volta, me explicaram que aquele grupo eram refugiados de uma aldeia invadida no Congo e talvez por isso eles sorriam, já residiram uma vida pior. Eles “migraram” e fugiram para o sul do continente esperando uma vida melhor.

As vezes sinto como se não estivéssemos sozinhos aqui, como se uma força especial cuidasse de nós, abençoasse nossas vidas de alguma forma. Vivi situações muito especiais que fortaleceram esta crença no mundo. Porém em ocasiões assim, sinto como se qualquer força capaz de nos proteger já tivesse partido. Hoje foi um desses dias, o dia em que senti nada, ou pela primeira vez senti tudo.

sábado

“Keresemose ee monate” significa feliz natal em setswana


Não tenho como negar, tem uma partezinha de mim que desejava passar esta noite com a minha família. O natal é sempre um momento especial... passando os presentes, os vestidos bonitos e a preparação da ceia, permanece o importante: a família reunida, os abraços, os sorrisos, as orações e a união.

Essa noite vou me reunir com crianças com fome de vida, estou doando meu amor e carinho. Nunca tinha concebido o verdadeiro significado do natal até agora. Hoje sinto a minha família em meu coração da forma mais intensa que já pude experimentar. Nesta noite também tenho certeza que estou no coração da minha mãe, e que ela me deseja ao seu lado. De alguma forma ela esta aqui e eu estou lá.

Meu natal dessa vez não é chique e elegante, não tem vestidos engomados, nem muita comida ou presentes caros. Ele tem muito mais. Tem presentes confeccionados com pedrinhas e cartões em folhas de arbusto. Nós vamos rezar em setswana e depois em inglês. Cantar e ficar em silêncio pedindo pela benção das crianças que não tem o que comer, vestir ou que não tem quem as ame. A minha vista, são as crianças que estão aqui comigo que mereciam essa benção, mas elas não se enxergam dessa forma, se enxergam afortunadas e isso me faz ter uma nova visão sobre a cegueira que antes me rondava.

Khwai Communitie
Além das orações aqui canta-se a noite inteira, cantar realmente espanta os males.... Até mesmo a fome e o frio. O silêncio nos permite ouvir as manifestações mais singelas e belas da África. Ontem já começamos a preparar nossa festa, no caminho para a fogueira no qual vamos fazer a ceia já escutava as risadas e conversas dos pequenos ansiosos com esta noite especial. Que risadas gostosas!

Esse natal sem dúvidas vai ser o mais simples, honesto e feliz que já tive. Não existe satisfação maior em compartilhar o pouco que temos com quem realmente precisa.

CITW, Banoka Camp

Desejamos um feliz natal a todos vocês, um natal repleto de união, amor e alegria!  Beijo grande, Duda

quinta-feira

"Taps" significa reza em Setswana


Hoje uma menina chamada Taps veio até mim e disse que queria ter outro corpo. No inicio não entendi, não sei como interpretei a frase em primeiro momento, mas sabia que não seria uma conversa fácil. Fiquei em silencio esperando ela se sentir mais confortável para continuar.. Rapidamente ela se sentou no chão e começou a falar enquanto rabiscava a terra com um graveto. Taps me explicou que queria ser um pássaro, ou um peixe, que pudesse percorrer o mundo e conhecer lugares distantes. Disse que o corpo dela a prendia nesta vida, e que esta, não era a vida que ela deveria estar vivendo.

Ainda me surpreendo em ver crianças tão jovens com visões tão polidas. Estou habituada a conviver com gente apegada que não consegue discernir as possibilidades que o mundo oferece. Como uma menina de 16 anos pode ser tão lúcida, ela parece não ter mais que 13 anos de tão pequena e magrinha que é. Quando contei que eu vinha do Brasil e apontei para o meu país no mapa, ela disse que queria ser como eu; que queria poder sair de onde mora e apreciar o mundo. Foi uma revelação muito pura e honesta e naquele momento era tudo que eu precisava. Andava chateada com alguns caminhos que a vida toma por nós e deixei esse sentimento de desapontamento tomar conta de mim.

Desde pequena rezo para o meu anjo da guardo e acredito que as vezes ele aparece pra me resgatar. Dessa vez ele brotou no corpo da frágil Taps. Quanta vergonha senti depois que dei conta de como fui egoísta e deixei minha tristeza contagiar todo meu coração. Mas quando o mundo fecha uma porta, ele definitivamente abre uma janela. Cabe a nós enxergar em volta não deixando as mágoas daquela possibilidade perdida afetar nossa visão.

Eu vejo muitas janelas aqui, muitos olhinhos brilhantes ansiosos por uma nova vida. Tenho certeza que além do aprendizado profissional que vou levar comigo, também vou me resgatar e ser o anjo da guarda de alguém. Me recuso a sucumbir ou me confortar com medo do desconhecido. Aqui, eu estendo o limite da minha coragem e me desapego do que me faz sentir pequena e mundana.

Taps 
Um bom domingo a todos..

Beijos, Duda

"Hasi" significa negativo em Swahili


Hoje é meu último dia em Maun. Infelizmente não foi feliz e tranqüilo como eu esperava. Essa manhã tive uma entrevista no escritório de imigração de Botswana. Estou aplicando para o meu visto de trabalho e essa tem sido a maior novela que eu já vivi. A Wilderness está me ajudando bastante, 3 dos meus superiores ligaram para conseguir esta entrevista. O chefe do meu chefe, Tony Reurman foi pessoalmente me apresentar e recomendar ao escritório de imigração. Chegando lá ele me abraçou e sussurrou “boa sorte”. Entramos. 

Fui recebida por uma senhora alta de cabelos ruivos que sorriu muito simpática para mim, e abraçou o Tony como se fossem amigos de infância. Torci para que minha entrevista fosse conduzida por ela. Senti que nos daríamos bem, ela me parecia muito amigável. No entanto, ela se retirou da sala levando o Tony pela mão. Ele olhou para trás e me deu uma piscadela. Esse é o chefe mais bacana que eu já tive. 

Quando a porta se abriu novamente um senhor negro de quase 2 metros entrou. Me levantei para cumprimenta-lo mas ele foi mais rápido se sentando e já perguntando pelos meus documentos. Ok. Passei uma pasta com todas as cópias exigidas. Passaporte, carteira de motorista, certidão de nascimento, diplomas, certificados, cartas de recomendação. Todo o carnaval necessário para provar que sou uma pessoa decente.

Para começar ele encrencou porque eu não tinha os originais. Tentei explicar que toda esta documentação estava no Brasil e foi digitalizada e enviada para mim. Grande erro. Ele começou a dizer que essas cópias deveriam ser autenticadas pelo cartório e para isso eu precisaria das originais. Tentei explicar sobre o fator tempo e distância. Acho que quanto mais ele ouvia a minha voz, mais irritado ficava. Comecei a ficar com um pouquinho de medo. Esse homem tem o poder de decidir o meu futuro, a minha vida nos próximos meses. Melhor não contradize-lo. 

O nervosismo estava tomando conta de mim, minhas mãos suavam frio quando ele começou a ler as cartas de recomendação. Quero agradecer aos meus chefes e colegas de trabalho que foram atenciosos e me enviaram suas cartas. 

Obrigada Flavia Cabral, minha monitora na faculdade. Essa foi a carta que mais me emocionou, foi um imenso prazer pesquisar sob sua supervisão. 

Maria Isabel A Cunha, diretora do projeto Educari e minha coordenadora na Escola Stella Maris na Comunidade do Vidigal. Você me viu crescer e nunca desistiu de mim. Obrigada. Foram dois anos de muito aprendizado.

Antônio Carlos Paiva Futuro, diretor de administração e gestão da FUNAI. Sua carta revelou a credibilidade do meu projeto Save Xingu e mostrou cooperação entre Brasil e Botswana. Muito obrigada.

Mary Harstag, minha atual chefe. Sua carta demonstrou confiança em mim e no meu trabalho.   Também me prometeu um emprego. Essa foi a carta mais importante. Afinal, para que serve um visto de trabalho sem emprego?

A sala estava quente, e o oficial as vezes afastava os olhos do papel para me fitar. Foi o pior e mais humilhante momento que vivi aqui, me senti tão vulnerável. Ele me apresentou uma lista de motivos pelos quais não vai liberar o meu visto. Chorei um pouquinho, o oficial ficou sem saber o que fazer. Foi até engraçado ver aquele homem que entrou na sala tão confiante completamente desconfortável. Ele sugeriu que eu aplicasse novamente e disse que 98% dos pedidos não são aprovados de primeira. Acho que é como a carteira de motorista no Brasil. Eles reprovam para que paguemos a taxa novamente. Odeio participar desse sistema, mas não tem outro jeito. 

Eu entendo que politicamente essa é uma situação complicada. O protocolo em Botswana é não facilitar visto de trabalho para estrangeiros. Mas em um país onde a mão de obra é desqualificada e a taxa de desemprego é alta, o que se deve fazer?

Acredito que os investimentos em educação deveriam ser prioridade, transformar as seguintes gerações em profissionais qualificados, assim as empresas privadas irão procurar seus funcionários dentro do país. No entanto, não existem profissionais locais capazes de executar certas funções. Assim Botswana permanece estagnado, as empresas da África do Sul hesitam em investir. Para um trabalho bem sucedido e um desenvolvimento local é necessário profissionais capacitados, mas o governo insiste em enxergar o estrangeiro como inimigo. Estou morrendo de raiva. 

Esse post foi mais um desabafo de insatisfação do que qualquer outra coisa. Fico chateada em  ver um sistema que diz ser para o povo e na verdade é uma máquina de dinheiro. Outra semelhança entre Brasil e Botswana? Política corrupta.

Saindo de Botswana. Rumo a Johannesburgo....

Fico cinco dias em Jo'burg e dia 20 embarco para o Rio
Até, Duda

quarta-feira

“Dithuto” significa lições em setswana


Aqui, estou vivendo um constante desafio, minha primeira aula com uma classe mais velha foi um fiasco. Acho que as vezes ele percebem o medo em mim e por isso abusam um pouco. Ontem a tarde um dos rapazes se levantou no meio da minha aula e me surpreendeu com uma resposta agressiva, não foi exatamente o que ele disse que me amedrontou, mas a forma como disse. Não tive reação, ele se aproximou e exibiu a mim e a todos da turma o seu membro. Acho que ele estava tão cheio de fúria dentro de si que projetou seu corpo para atingir um metro e oitenta. Eu me senti tão pequena e desamparada que não consegui agir. Sinceramente estava morrendo de medo. Como lidar com a classe nesse instante e especialmente com aquele rapaz?

Não sei se foi sorte, ou mais um daqueles anjos da guarda que vem ao nosso resgate, mas um dos guias do camp estava perto e ouviu a exaltação do momento. Rapidamente ele entrou e interferiu segurando o rapaz. Sai caminhando em passos rápidos e quando já estava fora de alcance da vista das crianças corri para minha cabana, travei meu pânico até chegar no meu quarto e lá simplesmente me deixei viver o desespero. Me entreguei ao chão e fiquei ali chorando por alguns minutos. Não sei exatamente quanto tempo passou, senti no inicio medo, medo de estar sozinha no meio de tantos rostos desconhecidos e sem saber o que esperar daquele menino. Depois comecei a sentir vergonha por estar naquela situação e não ter força para encarar um rapaz e uma turma que na verdade devia estar mais assustada do que eu.

Acho que no fim estava esgotada de me sentir fraca, é mais simples ser forte e agir com firmeza. Me levantei, tomei uma chuveirada para enganar meu rosto inchado de lágrimas e comecei a voltar a sala de qual havia fugido mais cedo. Concordo com a sabedoria popular que diz que a melhor forma de aniquilar os nosso medos é enfrentando-os. Quando cheguei na tenda, Jeffrey, o coordenador do programa estava dando a aula que eu havia abandonado. Me envergonhei ainda mais nesse momento, mas ele indicou com a cabeça para que eu entrasse na cabana. De forma muito natural fez sinal para que o mesmo rapaz que me enfrentou se levantasse. Dessa vez ele parecia menor, muito menor se comparado a Jeffrey, um negro de 50 anos que deve ter uns dois metros de altura. O jovem me pediu desculpas e eu percebi a tortura daquele vexame e arrependimento em seus olhos. Também não estava confortável naquela situação e sinalizei que estava tudo bem estendendo a minha mão.


Perdi a minha turma, perdi a chance que tinha para aprender com eles. Colocaram um professor local para aquele grupo e me trocaram para um grupo de meninas de 11 e 12 anos. Acho que não estava pronta para o desafio, mas aprendi que preciso controlar meu medo e minhas inseguranças diante de situações fervorosas. Espero não passar por outro momento como aquele, mas se acontecer tenho certeza que encontrarei forças em mim para saber agir com vigor, segurança e responsabilidade.
Eu e minha nova turma :)

Passado essa situação desagradável, Mary e Neo, minhas melhores amigas aqui no camp me fizeram uma surpresa. Comovidas com o incidente de mais cedo, elas decidiram fazer um jantar especial. Neo para me alegrar me enfeitou como se fosse sua boneca. Missão cumprida! Realmente me distrai e me senti especial naquele modelito emprestado. Me vestiram com um traje típico de princesa Zulu. Todos os homens do camp vieram me cortejar e oferecer cabeças de gados em troca do meu casamento, me senti mesmo uma princesa... Brincadeiras a parte, foi uma noite muito feliz e divertida. E meu dia que parecia meio maluco e estranho terminou muito gostoso.
Eu de princesa Zulu

Um pouco mais esperta, Duda


terça-feira

"Bibi" significa avó em Swahili

Quando a minha mãe veio me visitar ela trouxe vários presentes e lembranças de amigos e pessoas queridas. Minha avó mandou um livro. Ela sempre teve um ótimo gosto para leitura. Dessa vez chegou até mim “O Tigre Na Sombra” da Lya Luft. A narrativa já se inicia com um trecho sensível, talvez porque eu estou aqui vulnerável as pessoas e a condição humana me conectei imediatamente com esta reflexão.


“Quando estavam de bom humor os deuses abriram as mãos e despejaram sobre a terra os oceanos com seus segredos, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as ma- nadas, as revoadas — e, para atrapalhar tudo, as pessoas.
Mas onde está todo mundo? Buscando se anestesiar ou obter respostas, atrelados às mesmas incansáveis perguntas, como, quando, quanto, por quê, por que eu?”

Obrigada Vó por me confortar e amar da maneira que você mais conhece, através das páginas de um livro. Espero que você enxergue e se alimente do que eu estou vivendo para também transformar a sua vida. Amo você. 

Beijos, Duda

segunda-feira

"Habari" significa novidades em Swahili


Janeiro foi um mês repleto de novidades... Recebi uma proposta inesperada. Talvez seja um presente para comemorar o final da viagem, ou o motivo pelo qual eu vou voltar para África no futuro. Quem sabe, um pouco dos dois.
Tudo começou com uma carta... Após conhecer o meu blog a diretora de criação da Orgânica Produções, Joana Brea, enviou uma proposta para gravar a minha experiência aqui na África. Traduzir em vídeo o que eu venho contando no blog. Claro que fiquei muito feliz e animada com a proposta. Mas mais do que isso, fiquei satisfeita em ver que o meu trabalho estava sendo reconhecido, e diferentes profissionais gostariam de compartilhar e fazer parte dessa vivência.
Depois da aprovação da Wilderness e muitos email sobre a pauta e o itinerário que vamos fazer. Está tudo certo e confirmado. A equipe esta chegando em Maun e vamos gravar um programa piloto em 3 diferentes camps e comunidades. Banoka Camp, Jacana, Kalahari e Khwai Community. Será uma experiência maravilhosa e desafiadora. Torçam por mim!
Bjs, Duda
Sigo aguardando meu visto de trabalho, e se o governo de Botswana liberar essa documentação eu fico para trabalhar como coordenadora de projetos para a Wilderness, caso contrário minha volta será em 15 dias...

"Kuandika" significa escrever em Swahili


Minha avó pediu para eu voltar a escrever. Pedido de vó, sabe como é... Não dá muito para escapar. Aquele pedido foi um conselho escondido. Uma solicitação que ficou invadindo meus pensamentos de um jeito meio penetra. Decidi que a melhor forma de expulsar este convidado seria deixa-lo viver e seguir seu curso. Então me sentei e comecei a digitar essas poucas frases.

“Escreva. Vai te ajudar a lidar com tudo que você esta sentindo.”

 Aqui estou eu, seguindo o conselho da minha avó. Escrevendo. Mas o que é que estou sentindo? Vou escrever sobre o que? Achei que quando voltasse, encontraria tempo e força para escrever as histórias da África. As história que ainda não contei. Mas a verdade é que quanto mais tento relembrar o que vivi, mais me parece distante, alheio a mim. Me sinto sem eixo.

Estou em busca de algo novo.
Algo que me inspire, que eu domine e me mova.
Algo que me faça sentir viva.
Algo que torne o penetra, convidado.

quinta-feira

"Nyumbani" significa casa em Swahili


Cartaz que as minhas irmãs fizeram ;)
Cheguei no Brasil! 
Deixei uma parte do meu coração na África. 

Espero conseguir voltar pra lá e resgatar o que deixei pra trás o quanto antes. Mas de qualquer forma, trouxe muita coisa. Muitos ensinamentos e lembranças que ficaram tatuadas em mim.

Ainda estou me re adaptando a vida carioca... Agora, vou dividir momentos que não tive tempo ou coragem para escrever. Compartilhar dicas de iniciativas que tive a honra de conhecer. E contar um pouco sobre os projetos que se seguem. Essa viagem a África foi a primeira de muitas experiência.

É agora que tudo vai começar...
Bjs, Duda

quarta-feira

"Hatma" significa destino em Swahili

Quando era pequena meu padrinho, Carlos Mundi, me escreveu um poema.

Sua sensibilidade e dom foi capaz de me decifrar antes que eu mesma me entendesse. 
Através de suas palavras, hoje, eu enxergo a Duda que ele escreveu.

Com essas linhas celebro meu retorno ao Rio.
Até breve, Duda



terça-feira

"Mstari" significa linha em Swahili


Estou em Johannesburgo, na África do Sul. Ontem sai para jantar com um grupo de amigos. Em dado momento da conversa, me perguntaram sobre um ritual indígena que viram no jornal impresso aqui de Jo’Burg ano passado. Fiquei muito curiosa. 

A cultura indígena no Brasil é riquissíma, porém poucas pessoas no Brasil, ou no mundo, fazem ideia que esta cultura ainda esta viva. Conversando um pouco mais fomos capazes de localizar a noticia no jornal. 

Para minha surpresa quem eu encontro? Meu Xingu!!!! ;)


Era uma reportagem repleta de imagens e pouco texto, uma cobertura do Kuarup Yawalapiti - eu estava lá :). Veja aqui as fotos da minha viagem. Fiquei emocionada em descobrir isso na véspera da minha volta para casa. Senti como um sinal, uma última certeza que a África e o Brasil, mais especificamente o Xingu, estão realmente interligados.

Eu no Kuarup Yawalapiti 2012

O objetivo da minha vinda a África sempre foi de aproximar os dois lugares. Descobrir semelhanças e diferenças entre as operações e as comunidades locais, encontrar ideias e projetos que possam ser reproduzidos de forma bem sucedida no Brasil. Para meu espanto, desvendei muito mais do que esperava. 

Esse blog, de forma geral, é sobre a sutil linha que divide o Brasil e a África. As vezes senti como se essa linha fosse um precipício. Porém, depois de refletir, é sempre possível enxergar um ponto precioso que merece atenção. 

Os amigos com quem estavam ficaram surpresos com a coincidência, mas desde que cheguei aqui adotei o lema: “coincidências não existem...” melhor acreditar em seredipidade. 

Amanhã embarco de volta para o meu Brasil, para a minha Cidade Maravilhosa.

Até breve, Duda

quinta-feira

“Maji” significa água em Swahili

Ontem foi meu último dia no camp, meu último dia at the bush. A sensação é paradoxal, uni alegria pelo que foi vivido e uma melancolia do fim. Se eu pudesse apertaria o botão de rebobinar e voltaria para o começo, para o dia em que meu pai me levou no aeroporto lá no Brasil. Eu viveria tudo de novo, igualzinho, nem dos meu erros me arrependo, eles me fizeram aprender muito mais que meus acertos.

Tenho certeza que hoje sou uma pessoa diferente da que deixou o Rio em novembro de 2012. Sempre quis viver e me tornar alguém diferente e acho que quando pedimos por alguma coisa, o mundo não nos entrega de presente, mas sim nos dá a oportunidade de conquistarmos por nós mesmos. Foi isso que fiz, conquistei aprendizado e transformações.



Passei meu último dia perto da água do Okavango Delta, fiz um passeio de barco pela manhã e a tarde andei de mokoro. As mokoros são canoas feitas de fibra de vidro. Tradicionalmente eram construídas a partir dos troncos das árvores, no entanto a Wilderness optou por substituir as tradicionais mokoros por sua irmã mais sustentável. Cada mokoro tradicional custa uma árvore e dura somente alguns meses, ela é muito pesada e afunda após algumas semanas de uso. Funciona como uma gôndola, com a ajuda de uma vara os rapazes crescidos no Okavango Delta se equilibram na parte de trás para dirigir esta encantadora embarcação.

O mokoro é um dos principais meios de transporte aqui no Okavango Delta, como a maior parte das áreas é alagada o mokoro é a solução para se locomover com segurança, rapidez e facilidade. O maior perigo dos mokoros, é o encontro com os hipopótamos. Esses são os animais mais agressivos e perigosos da África, para evitá-los basta navegar em águas rasas.

Estando se muito perto da água, o mokoro nos possibilita apreciar o ecossistema por outro ângulo. É uma sensação de paz e tranqüilidade absoluta. Não existe motor para atrapalhar o silêncio, somente o som da canoa atravessando as águas. Também existe um sentimento de vulnerabilidade diante da natureza, ao contrário do barco ou do carro, o mokoro é muito delicado e qualquer movimento brusco pode vira-lo. Estar a mercê da vida selvagem nos ensina sobre confiança e como na verdade somos pequenos e frágeis neste mundo. 



Eu pedi para tentar fazer o mokoro, estava achando que funcionaria como um standup paddle. Grande engano. A canoa é pesada, difícil de contornar e manter uma direção. O equilíbrio foi a parte mais fácil para mim, mas na hora de usar o bastão para dar movimento ao mokoro senti como se fosse cair várias vezes. Felizmente isso não aconteceu, pois as meninas da Orgânica Produções estavam preparadas com as suas câmeras para gravar este mico.  No fim das contas, acho que fui bem, circulei um pouquinho antes de acertar uma direção, mas pelo menos não cai na água.

Fiz um vídeo e assim que chegar em Jo'burg vou compartilhar.. está super engraçado!

Beijos, Duda

terça-feira

"Sanaa" significa arte em Swahili


O potencial da mulher é incontestável. Seja qual for a cultura a mulher é símbolo de vida. No Okavango Delta, a mulher exerce diferentes funções em benefício da comunidade. A criação de seu artesanato talvez seja a única a atividade que ela crie para si mesma. Hoje, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre o artesanato do Delta. Esta atividade é uma das únicas fontes de renda das mulheres e, assim, é uma pratica muito importante que deve ser feita com precisão, cuidado e talento. 



O trabalho meticuloso e detalhado, transmite sua beleza e de forma sutil ela expressa sua arte. Podemos sentir em cada peça suas particularidades. O material é todo retirado do meio ambiente. As folha das palmeiras “ilala palms” se tornam cestas, pulseiras, bolsas e objetos de decoração. Cada peça leva semanas para ficar pronta e cada uma contém um significado especial. As figuras impressas nos cestos traduzem o Okavango Delta, são desenhos de waterlillies, diamantes de Botswana, pele de girafa, linhas das zebras e outros reflexos da África... Até as cores  na palha são tingidas de forma natural, como o azul, que é feito de sementes de blueberry.


Para apoiar a cultura local e celebrar essas artesãs decidi comprar várias peças para presentear as minhas amigas. Acho muito gostoso comprar presentes que sei de onde veio, carregam um significado e ainda ajudam a comunidade local. Tenho certeza que as minhas amigas também apreciarão a beleza de cada lembrança. Além da venda as cestas são criadas e utilizadas no cotidiano de suas criadoras. Algumas delas caminham até 6km com melancias equilibradas em suas cabeças dentro dos cestos e ainda carregam um bebê nas costas. 


Com o ciclo da produção, e o aumento contínuo da quantidade dos artesanatos, as peças são criadas especialmente para a venda que busca levar de forma responsável a cultura do Delta para os que apoiam e buscam incentivar a preservação socioambiental. Aqui no Wilderness Camp, o diferencial é a proximidade da artesã com o seu trabalho e o ponto final nessa longa linha. Cada peça recebe um cartão que conta quem o produziu, além de podermos ver as mulheres tecendo suas peças. O objetivo é aproximar e dar uma identidade artística a cada artesã, para que seu valor não seja perdido, e a intenção de incentivo a preservação da cultura seja mantida.



Fiz um vídeo super bacana das mulheres construindo suas peças, mas a conexão aqui não é suficiente para ulpoad. Mais tarde compartilho com vocês. 

Beijos, Duda